sexta-feira, 13 de maio de 2011

PROFESSORES APAIXONADOS




Professores e professoras apaixonados acordam cedo e dormem tarde, movidos pela idéia fixa de
que podem mover o mundo. Apaixonados, esquecem a hora do almoço e do jantar: estão
preocupados com as múltiplas fomes que, de múltitplas formas, debilitam as inteligências.
As professoras apaixonadas descobriram que há homens no magistério igualmente apaixonados
pela arte de ensinar, que é a arte de dar contexto a todos os textos. Não há pretexto que justifique,
para os professores apaixonados, um grau a menos de paixão, e não vai nisso nem um pouco de
romantismo barato. Apaixonar-se sai caro!
Os professores apaixonados, com ou sem carro, buzinam o silêncio comodista, dão carona para
os alunos que moram mais longe do conhecimento, saem cantando o pneu da alegria. Se
estiverem apaixonados, e estão, fazem da sala de aula um espaço de cânticos, de ênfases, de
sínteses que demonstram, pela via do contraste, o absurdo que é viver sem paixão, ensinar sem
paixão.
Dá pena, dá compaixão ver o professor desapaixonado, sonhando acordado com a
aposentadoria, contando nos dedos os dias que faltam para as suas férias, catando no calendário
os próximos feriados.
Os professores apaixonados muito bem sabem das dificuldades, do desrespeito, das injustiças, até
mesmo dos horrores que há na profissão. Mas o professor apaixonado não deixa de professar, e
seu protesto é continuar amando apaixonadamente.
Continuar amando é não perder a fé, palavra pequena que não se dilui no café amargo, não foge
pelo ralo, não se apaga como um traço de giz no quadro. Ter fé impede que o medo esmague o
amor, que as alienações antigas e novas substituam a lúcida esperança.
Dar aula não é contar piada, mas quem dá aula sem humor não está com nada, ensinar é uma
forma de oração. Não essa oração chacoalhar de palavras sem sentido, com voz melosa ou
ríspida. Mera oração subordinada, e nada mais.
Os professores apaixonados querem tudo. Querem multiplicar o tempo, somar os esforços, dividir
os problemas para solucioná-los. Querem analisar a química da realidade. Querem traçar o
mapa de inusitados tesouros.
Os olhos dos professores apaixonados brilham quando, no meio de uma explicação, percebem o
sorriso do aluno que entendeu algo que ele mesmo, professor, não esperava explicar. A paixão é
inexplicável, bem sei. Mas é também indisfarçável.

Gabriel Perissé

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